Artigo: Redução da jornada: dignidade e eficiência

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Usar a "baixa produtividade média" como desculpa para manter a escala 6x1 é inverter a realidade

Por Antônio Bernardo Santos Pereira, procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul

A riqueza de um país não se mede pelo número de horas que seus cidadãos dedicam ao trabalho. Ao contrário: quanto mais rica e organizada a economia, menor tende a ser o tempo de labor. Em 2024, a jornada real média foi de 33,9h na Alemanha e na Dinamarca. Já em países de menor renda, ela sobe para 50,7h no Sudão e 46,7 em Bangladesh.

Esses números ajudam a desfazer um argumento repetido no Brasil: o de que, como o trabalhador brasileiro seria "pouco produtivo", deveria trabalhar mais. A premissa é falsa. A produtividade de um país não depende apenas do esforço do empregado, mas também de investimento, tecnologia, gestão, logística, organização da produção e setores de atividade incentivadas em cada país. Não é o trabalhador quem escolhe o maquinário, define a inovação ou controla as condições materiais do trabalho.

Por isso, usar a "baixa produtividade média" como desculpa para manter a escala 6x1 é inverter a realidade. O brasileiro trabalha mais que seus pares em países desenvolvidos, a despeito de enfrentar piores condições de trabalho e maior deslocamento no trânsito todos os dias.

Estudo recente do Ipea mostrou que reduzir a jornada máxima para 40 horas semanais seria facilmente absorvível pela economia nacional. Ademais, como as jornadas mais longas recaem justamente sobre quem ganha menos, tem menor escolaridade e enfrenta maior rotatividade, a medida tende a ser acompanhada de reorganização do trabalho, com ganhos à produtividade e permanência no emprego.

Ademais, para milhões de mulheres a jornada não termina quando acaba o expediente. Ela continua em casa, no cuidado com filhos, idosos e tarefas domésticas. A redução da jornada formal também é medida de justiça para quem sustenta duas jornadas todos os dias.

Limitar a carga semanal a 40 horas e garantir dois dias de descanso é medida apta a valorizar a vida do trabalhador e aproximar os brasileiros dos padrões das ditas "nações desenvolvidas".

Publicado originalmente em GaúchaZH

Tags: Junho

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